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A Chama Violeta

Sítio dedicado à filosofia humana, ao estudo e conhecimento da verdade, assim como à investigação. ~A Luz está a revelar a Verdade, e a verdade libertar-nos-á! ~A Chama Violeta da Transmutação

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Novembro 02, 2020

chamavioleta

Dia dos Mortos 

Reflexão sobre a festa mexicana

Por Eu Sem Fronteiras

2 de novembro de 2020. 



 
 
 
Nós já ouvimos muito a frase: “A única certeza que temos na vida é que vamos morrer”. Paradoxalmente, essa certeza ajuda a dar sentido à vida.
 
Desde tempos remotos, o homem tenta desvendar os mistérios que envolvem a morte: será que o corpo (matéria) sem vida, de fato a representa? E se existe outra vida depois que morremos, como ela seria, onde aconteceria, haveria um corpo para ela? São muitos questionamentos.
 
Muitos povos, de acordo com sua cultura, crenças e espiritualidade, têm uma maneira peculiar de encarar a morte. Isso faz com que também tenham suas peculiaridades para tratar seus mortos e se lembrar deles.
 
Vários países definem uma data para a memória aos mortos, que pode variar, de acordo com seus costumes. Por exemplo, na China é dia 5 de abril; no Japão, entre os meses de julho e agosto, de acordo com o calendário lunar; na Bolívia, 9 de novembro. Aqui no Brasil, comemoramos no dia 2 de novembro.
 
Já no México, há o tradicional Día de los Muertos (ou Dia dos Mortos), quando acontece uma das maiores festividades do país, reconhecida, inclusive, pela UNESCO como Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade.
 
Neste artigo, vamos refletir sobre a forma peculiar como os mexicanos encaram a morte e por qual razão eles celebram o Dia dos Mortos com festa.
 
No México, a morte é enxergada como parte do ciclo da vida e da natureza, mas que não encerra uma existência, pois a alma é imortal. Acreditam que ela é uma passagem para um mundo onde só existe alegria e fartura, e o que ocorre é apenas uma mudança na existência. Por isso, não há motivo para tristeza.
 
 
fer gomez/Unsplash
 
Para os mexicanos, entre os dias 1º e 2 de novembro, um portal se abre, permitindo que os espíritos façam uma breve visita aos entes queridos que deixaram neste mundo. Então é um motivo de festa, de alegria e de celebração. Há uma expressão de amor dos mexicanos aos falecidos e uma memória de respeito à história de cada um no Dia dos Mortos. Para eles, a morte real acontece quando o finado é esquecido. Toda a celebração é feita em honra aos entes queridos que partiram, mas também tem uma pitada de crítica social.
 
Os rituais começam no dia 30 de outubro, quando uma vela preta é acesa para todas as almas, nos altares preparados para os mortos. Do meio-dia de 31 de outubro ao meio-dia de 1º de novembro, acendem-se velas brancas, em homenagem às almas das crianças. A partir do meio-dia de 1º de novembro até o meio-dia de 2 de novembro, os mexicanos acendem velas coloridas para homenagear a visita dos espíritos de jovens e adultos.
 
A celebração pode se estender até o dia 3 ou 4 de novembro e tem a característica principal de ser uma celebração em família. Ela demonstra a consideração aos laços afetivos familiares e ensina desde cedo a importância de se preservar a história dos antepassados. As famílias fazem vigília e ceia tanto nas próprias casas como nos cemitérios, que são enfeitados e, durante a noite, ficam lotados de pessoas alegres. Não há lamentação. É uma demonstração de afeto e consideração por quem fez parte da história e da vida da família.
 
Os mexicanos aceitam muito bem que somos feitos de matéria que se transforma em ossos e pó. Alguns retiram das covas os ossos dos seus finados e os limpam, devolvendo depois. Esse é um ato de carinho e zelo pelos mortos. Pode parecer bizarro – em especial para nós, brasileiros, já que aqui no país a violação de túmulos e a apropriação de restos mortais são crimes –, mas há outros países com práticas semelhantes ou até mais inusitadas que essa.
 
 
Um pouco de história
 
Zyanya BMO/Pexels
 
 
Os mexicanos mostram respeito aos ancestrais e às tradições iniciadas por eles, pois os rituais de celebração dos mortos eram praticados pelos astecas, maias, purépechas, náuatles e totonacas há mais de três mil anos e são mantidos até a atualidade, muito embora nem todos os mexicanos conheçam a origem da celebração do Dia dos Mortos.
 
Na época pré-hispânica, essa data era comemorado no mês de agosto inteiro (pelo calendário solar asteca). As festividades eram presididas pela Dama da Morte, esposa do Senhor do Reino dos Mortos. Ela é conhecida por La Catrina e foi popularizada pelo cartunista José Guadalupe Posada.
 
A figura de La Catrina é um esqueleto de mulher com um chapéu elegante, dando a ideia de que ela pertencia à alta sociedade do século XX. Ela está por toda a parte na celebração do Dia dos Mortos, sendo muito tradicional. Algumas cidades organizam concursos para eleger a melhor fantasia de La Catrina.
 
Para os mexicanos, ela representa a realidade de que na morte não há diferenças sociais, e indiscutivelmente todos têm o mesmo destino: os corpos se tornarão ossos. Somos impotentes diante da morte. Ela é igualitária, não na forma, nem no tempo de cada um, mas no resultado, independente da condição de maior ou menor privilégio na vida. Ela nos tira todas as vaidades e nos transforma no que somos enquanto matéria.
 
 
Alegria e consciência social
 
Filiberto Santillán/Unsplash
 
A festividade do Dia dos Mortos é muito animada, colorida, decorada, repleta de simbolismo e começa a ser organizada com antecedência. Durante essa data, os mexicanos dão seu máximo, como bons anfitriões, para agradar as almas visitantes.
 
Além de toda a alegria e reverência, essa data também é um instrumento social de crítica e denúncia contra políticos e poderosos em relação às injustiças e ao sofrimento do povo. Há caveiras com nomes de pessoas para as quais se deseja “outra existência”. São escritos pequenos poemas satíricos que tratam do encontro dessas pessoas com a morte – as famosas calaveritas literárias (ou caveirinhas literárias).
A festa, em detalhes
 
As casas são enfeitadas. Não faltam tequila e mezcal (bebida alcoólica rústica à base de fermentação do agave). Há muita música, com mariachis e bandas, pessoas fantasiadas de La Catrina, muitos crânios e caveiras, que logo desmistificam o medo da morte, mostrando o que acontece com o corpo quando a alma parte para o outro mundo. Assim, todos vão se acostumando e enxergando os ossos com naturalidade e sem susto, até de uma forma bastante brincalhona.
 
Altares coloridos são o ponto central da festividade. Eles são decorados com fotos dos falecidos, as roupas que eles usavam, as bebidas e as comidas que eles consumiam, objetos que lembram o que faziam… tudo para relembrar quem eles eram. Todas essa coisas são uma homenagem aos finados e às suas histórias. Fazem uma ligação entre as gerações.
 
Os altares são destinados às oferendas, como o pan de muerto (pão de morto) – uma iguaria que inclui raspas de laranja, erva-doce e enfeites de caveiras e ossos –, batatas, nozes, doce de abóbora, caveirinhas de açúcar e de chocolate (os preferidos das crianças), frutas e tudo que os familiares podem providenciar em reverência aos entes queridos que partiram.
 
Filiberto Santillán/Unsplash
 
Tudo no altar tem um significado. As velas, uma para cada falecido, ilumina o retorno da alma ao mundo a que ela pertence. O sal é para evitar que as almas sejam corrompidas pelas tentações terrenas. Papéis coloridos se movimentam com o vento, representando que os mortos passaram pelo local. Incenso ou resina aromática (copal) purifica as almas e espanta os espíritos malignos. Alimentos, para os mortos matarem a fome depois da longa viagem feita ao mundo dos vivos. Água, para matar a sede dos falecidos antes de retornarem ao seu mundo. E ainda há muitos outros detalhes para dar cor, sabor e representar os quatro elementos da natureza: ar, fogo, terra e água.
 
As flores são um elemento de destaque. Flores brancas representam o céu; as amarelas e laranjas representam o brilho do Sol e são guias para as almas chegarem ao mundo dos vivos. A flor tradicionalmente usada é a cempasúchil, típica do luto maia. É conhecida como a “flor das 400 pétalas”, uma espécie de crisântemo que floresce no outono (Hemisfério Norte). Essa flor compõe os arcos na cabeceira dos altares, representando a passagem (portal) das almas do mundo dos mortos para o mundo dos vivos. Ela traz a ideia da brevidade da vida, da certeza de que estamos à mercê do tempo e que somos mortais.
 
Tudo é pensado para trazer à memória a importância dos finados para os seus entes queridos. Todos os detalhes são cuidados com atenção para demonstrar apreço e, ao mesmo tempo, familiaridade com a morte.
Aprendizado por meio da cultura
 
Assim, podemos aprender com os mexicanos uma nova forma de enxergar a morte. Eleger uma data como o Dia dos Mortos e celebrar com festa não é desrespeitar a memória de quem partiu. É uma quebra de paradigma. Enquanto buscamos sentimentos de conforto e superação, os mexicanos parecem ter a certeza de que existe um mundo melhor, mais divertido e mais abundante, onde todos vão se encontrar novamente para um tempo diferente.
 
É possível entender que a vida se alimenta da morte, que nem uma e nem outra nos pertencem, que a morte é universal e que, a cada dia que vivemos, também morremos um pouco.
 
Já dizia o filósofo latino Cícero: “A vida dos mortos é colocada na memória dos vivos”. E é disso que essa festividade trata. O sentimento de tristeza e perda pode ser transformado em sentimentos festivos de recordação e respeito pela história de cada finado. A festa do Dia dos Mortos é uma forma de preparar as crianças e os adultos, ainda que de uma forma mais divertida e despretensiosa, para a realidade da separação, com um entendimento mais natural.
 
Cada vez mais buscamos alternativas para nos mantermos jovens e, quem sabe, pela Ciência, vencer a morte. Já os mexicanos entendem a morte e a velhice como partes de uma existência. A vida e a morte são inseparáveis. Enquanto a morte é cultuada, a vida é experimentada numa celebração, com festa.
 
Constatamos nessa cultura um profundo amor pelas raízes, pelos ancestrais e pelo conhecimento deixado por eles. Um amor pelos familiares e amigos antepassados e pelo que representaram. Os mexicanos entendem a força da família na perpetuação dos valores morais e culturais.
 
Para nós, que na maioria, enxergamos a morte com um sentimento traumático, um choque e um vazio, a festa mexicana do Dia dos Mortos – apesar das diferenças culturais – é um aprendizado sobre não precisar de respostas científicas para viver com bons sentimentos e entusiasmo. Pense sobre isso!
 
 




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